quinta-feira, 5 de julho de 2007

Os enigmas

(O Outro, o Mesmo,1964)

Eu que sou o que agora está cantando
Irei ser amanhã o misterioso,
O morto, morador num silencioso
Deserto sem depois, antes ou quando.
Assim declara a mística. Mas eu
Creio-me indigno do Inferno ou Glória,
Embora nada afirme. A nossa história
Muda tal como as formas de Proteu.
Que errante labirinto, que brancura
Esplendorosa será a minha sorte
Quando me der o fim desta aventura
A curiosa experiência que é a morte?
Quero beber o cristalino Olvido,
Ser para sempre; mas nunca ter sido.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O labirinto

Zeus não poderia desatar as redes de pedra que me cercam. Já esqueci todos os homens que antes fui; segui o caminho de insípidas paredes que é o meu destino. Rectas galerias que se curvam em círculos secretos ao fim de muitos anos. Parapeitos gretados pela erosão dos dias. Entre a poeira tenho decifrado rastos que temo. O ar tem-me trazido nas mais côncavas tardes um bramido ou o eco de um bramido desolado. Sei que na sombra há Outro, cuja sorte é fatigar as tãos longas saudades que tecem e destecem este Hades, ansiar meu sangue e devorar-me a morte. Ambos nos procuramos. Quem me dera fosse este o dia último da espera.


(Borges, José Luis, Elogio da Sombra, 1969)