Zeus não poderia desatar as redes de pedra que me cercam. Já esqueci todos os homens que antes fui; segui o caminho de insípidas paredes que é o meu destino. Rectas galerias que se curvam em círculos secretos ao fim de muitos anos. Parapeitos gretados pela erosão dos dias. Entre a poeira tenho decifrado rastos que temo. O ar tem-me trazido nas mais côncavas tardes um bramido ou o eco de um bramido desolado. Sei que na sombra há Outro, cuja sorte é fatigar as tãos longas saudades que tecem e destecem este Hades, ansiar meu sangue e devorar-me a morte. Ambos nos procuramos. Quem me dera fosse este o dia último da espera.
(Borges, José Luis, Elogio da Sombra, 1969)
sexta-feira, 29 de junho de 2007
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